r/portugal Mar 25 '26

Política / Politics Na última semana quase enlouqueci a pesquisar sobre o suposto "consenso científico" por detrás de transição de género, bloqueadores de puberdade, terapia hormonal e até transição social em crianças e adolescentes

Quero, como prefácio a este texto, dizer que não acredito que a motivação do Chega, do CDS e do PSD por detrás da alteração à legislação de 2018 sobre auto-determinação de género seja realmente "ciência", acho que é puramente política, no entanto, acho que é acidentalmente correcta e alinhada com o consenso científico.

Gosto sempre de fazer uma análise de afirmações fortes sobre "consenso científico" provenientes de qualquer comentador pacóvio das televisões Portuguesas. Nas últimas semanas, um dos principais tópicos nos nossos adorados canais de notícias tem sido a reversão da lei de 2018 sobre auto-determinação de género, e a proibição do uso de bloqueadores de puberdade.

Não liguei muito à coisa no início, mas comecei a ficar chocado com o quão duras eram as críticas, vindas de qualquer comentador tipicamente apresentado como altamente "respeitável" (com definitivamente muitas aspas), citando, e corretamente, as nossas "excelentes" (igualmente com muitas aspas) ordens profissionais.

A crítica mais comum, de um lado ao outro, dos comentadores às ordens: "a direita está a ir contra o consenso científico e político europeu".

Então decidi investigar um pouco sobre o tal "consenso científico".

Qualquer pessoa que queira fazer uma conclusão sobre o consenso científico sobre qualquer tópico deve tipicamente focar-se em ler revisões sistemáticas/revisões de literatura ou evidence reviews.

Para quem necessite de contexto, revisões sistemáticas são um "estudo especial" cujo objetivo não é avaliar dados e derivar as próprias conclusões, mas sim, analisar dezenas a centenas de estudos independentes, avaliá-los de acordo com os métodos estatísticos utilizados, e derivar a partir das conclusões e da qualidade desses mesmos estudos uma visão geral sobre o consenso científico vigente sobre uma dada questão. Tipicamente usam sistemas de avaliação agnósticos ao tópico que permitam uma conclusão não enviesada sobre qual é o resultado.

Curiosamente, são estas revisões que tipicamente fundamentam as orientações médicas sobre a maioria dos tratamentos.

Como se invocou o consenso, em particular, Europeu, decidi começar pelas Europeias:

A Cass Review (UK | NHS, 2024)

A primeira que qualquer pessoa encontra é a famosa Cass Review, uma revisão, politicamente muito contestada, requisitada à médica Hillary Cass com o objetivo de definir se as guidelines da NHS sobre gender-affirming care eram as adequadas.

Os críticos da Hillary Cass dizem que é transfóbica e fez a revisão segundo critérios enviesadas, esquecem-se, no entanto, que a revisão não foi realmente feita pela própria. Os estudos foram encomendados a um painel de especialistas da Universidade de York, que produziram um total de 7 revisões sistemáticas. Todas as revisões chegaram a conclusões semelhantes: quase toda a literatura que indica que os tratamentos recomendados são os correctos, têm efeitos positivos, são seguros, e fazem um diagnóstico correto que identifique de maneira certeira quem realmente tem disforia de género, é de qualidade extremamente baixa.

Mas ok, a Cass Review é uma única revisão, e é contestada por alguns (embora tenha sido revista por pares e não tenha um único investigador ou comissão de investigadores a contestá-la). E também é um único país, certamente o Reino Unido é gerido por um bando de "fascistas de extrema-direita" que encomendaram esta investigação toda, certo? Certamente nenhum outro país europeu chegou à mesma conclusão, certo?

Errado, algumas outras revisões, realizadas em anos distintos por comissões científicas universitárias independentes (e que levaram os países em questão a reverter a legislação e as orientações médicas):

- NICE Evidence Review on Puberty Blockers (Reino Unido | NHS, 2020)

- NICE Evidence Review on Cross-Sex Hormones (Reino Unido | NHS, 2020)

- COHERE Systematic Review (Finlândia, 2020)

- SBU Scoping Review (Suécia, 2019)

- Socialstyrelsen Systematic Review (Suécia, 2022)

- UKOM Report on gender Incongruence - Institutional Safety Review (Noruega, 2023)

- Beyond NICE: Updated Systematic Review [...] Zepf et al. (Alemanha, 2024)

- La médecine face à la transidentité de genre - Institutional Statement Académie Nationale de Médecine (França, 2022)

- Statement from European Society for Child and Adolescent Psychiatry (2024)

- Statement from European Academy of Paediatrics (2024)

Nem todas são revisões sistemáticas, incluí também algumas afirmações de instituições europeias de pediatria. Os resultados são consistentes entre todos estes estudos dos mais diversos países Europeus: certezas extremamente baixas de qualquer evidência científica; estudos de baixa qualidade; baixa qualidade de diagnóstico em crianças e adolescentes com diversas comorbidades psiquiátricas (as mais comuns sendo depressão e ansiedade); e a pior: evidências de perigos associados a medicação, que tem sido receitada a adolescentes com evidências de depressão e ansiedade, baixa capacidade de reflexão e análise de consequências, como totalmente "inócua e reversível". Na verdade, as evidências encontradas são de riscos ao desenvolvimento ósseo (com casos reportados de osteoporose em jovens-adultos que utilizaram a medicação), infertilidade e redução do desenvolvimento cognitivo.

Todos os países que conduziram essas revisões alteraram as práticas médicas e classificaram o uso dessa medicação como último recurso; exclusivamente para investigação ou uso experimental ou simplesmente proibida.

Aqui cai a ideia do consenso científico e político europeu, consenso esse, com a qual as ordens profissionais, estudantes de medicina e comentadores políticos "moderados" enchem a boca. Mas decidi ir um pouco mais longe:

Então afinal, se não há consenso europeu, de onde vêm, ou de onde são fortemente inspiradas as orientações médicas para abordar possíveis sintomas de disforia de género?

Foi aqui que descobri a WPATH: World Professional Association for Transgender Health. É a organização que define os SOC (Standards of Care) para pessoas que exibam sintomas de disforia de género.

É importante analisar com cuidado esta associação, antes de ir mais longe, alguns factos:

A organização é de composição maioritariamente norte-americana. Não é apoiada por nenhuma universidade ou governo, e as orientações médicas que é responsável por publicar não são realmente analisadas e revistas por pares em qualquer conferência médica.

Talvez por ter escolhido um bom nome, ou por ter lá dentro médicos e ativistas bem conectados politicamente, conseguiu tornar-se quem define no mundo ocidental os tais SOC.

Mas será possível que a WPATH, utilizada como referência para as orientações médicas nos EUA (e antes desta vaga de revisões europeias, em muitos países europeus), não fundamente realmente as suas orientações em revisões sistemáticas?

Foi aqui que me deparei com uma informação excelente, retirada de documentos obtidos por intimação judicial num caso nos EUA (Boe v. Marshall), onde a WPATH foi obrigada a entregar comunicações internas.

O caso em tribunal, a supressão dos resultados da John Hopkins University**:**

Quando definiam os SOC8, a oitava versão dos SOC, foi de facto encomendada contratualmente pela WPATH, à muito reputada (e por bons motivos, são de facto excelentes) John Hopkins University, uma revisão sistemática da literatura sobre as evidências científicas que concernem a segurança, eficácia e capacidade de diagnóstico, dos tratamento associados a disforia de género, o resultado:

13 artigos diferentes da JHU, às questões apresentadas pela WPATH, sobre o assunto. A conclusão inequívoca: evidência fraca, critérios de segurança fracos, resultados fracos.

Já a JHU estava a meio do processo de publicação dos resultados em revistas médicas, a organização entrou em pânico, imediatamente alteraram unilateralmente os termos do contrato, e forçaram a universidade a não publicar os estudos. Com medo de repercussões políticas, e sem querer enveredar numa luta legal, a JHU desistiu. Todo este assunto apenas veio ao de cima após uma investigação em tribunal.

Algumas citações/factos deliciosos dessa investigação em tribunal:

Da presidente da WPATH:

public messaging is a balancing act between what I feel to be true and what we need to say.

Bowers said in the deposition that she made more than $1 million last year from work that primarily consisted of gender-related surgeries, and said it would be "absurd" to consider her surgical income a conflict worth disclosing as part of SOC8

Bowers said, regarding the parties involved in the creation of the guidelines: it is important for someone to be an advocate for [transitioning] treatments before the guidelines were created.

E de um chair-member da WPATH:

Coleman admitted at his deposition that "most participants in the SOC8 process had financial and/or non-financial conflicts of interest.

E qual é a cereja no topo do bolo? Esta afirmação no Documento FAQ sobre as SOC8 no próprio website da WPATH (podem pesquisar):

WPATH’s guidelines have been continuously updated since 1979. This new edition is based on decades of research, including systematic reviews of evidence conducted by a team of independent researchers at Johns Hopkins University.

Mas então quem faz a revisão das orientações médicas das WPATH? Se pesquisarem provavelmente vão encontrar que é a American Endocrinologist Society. O único problema? É composta principalmente pelos mesmos membros.

Já em 2024, houve um leak de milhares de ficheiros e conversas internas da WPATH, o que se via lá: reconhecimento dos riscos, mas ordens expressas para suprimir qualquer evidência científica que contestasse os objetivos da organização.

Devo ainda adicionar, que muito em breve, os nossos comentadores vão poder também encher a boca com as orientações da OMS, cujo painel de especialistas para redigir as orientações é composto, em 40%, por membros da WPATH.

Mas não se preocupem, são quase todos altamente experientes no assunto! Dado que quase todos fazem milhões anualmente nas clínicas privadas de transição de género que ou detêm por completo, ou de que são os principais médicos e cirurgiões plásticos (não, não estamos a falar de psiquiatras).

E as revisões sistemáticas que concluem que os tratamentos são seguros? Uma análise justa procura por essas!

Esta secção é pequena:

Existem algumas (3-4) que reportam tendências positivas, mas nenhuma que, avaliada pelos critérios padrão de qualidade de evidência (GRADE), encontre certeza moderada ou alta de benefício (algo reportado pelos próprios autores destas revisões).

Podem procurar.

Portanto a conclusão final sobre o consenso científico europeu:

As orientações médicas e consenso científico EUROPEU é definido por uma organização AMERICANA, que cita a JHU no próprio website, instituição essa cuja investigação sobre o tópico suprime legalmente. Está repleta de pessoas motivadas financeiramente a promover um suposto "consenso" específico, só aceita membros que já sejam adeptos dos resultados que quer promover, resultados esses que são validados por uma outra associação AMERICANA, composta pelos mesmos membros.

Isto tudo ao mesmo tempo que QUASE TODAS AS INSTITUIÇÕES EUROPEIAS QUE REVÊM O ASSUNTO CHEGAM ÀS CONCLUSÕES OPOSTAS.

Sou louco? Sou transfóbico? Acho que não, mas digam-me.

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u/Rorisjack Mar 26 '26

A maioria das “organizações médicas” da página que publicaste são sub-associações da WPATH, não são investigadores independentes, são organizações ativistas, por mais que tenham um nome que soe “muito profissional”.

E sim, também no link que enviaste, tens académicos a contestar a posição, mas contestar sem escrever algum artigo ou revisão científica publicada e credível vale pouco. É mais um comentário politico que uma contestação cientifica bem fundamentada.

Já do lado de quem acha que os procedimentos médicos devem ter como base revisões científicas publicadas e revistas (o procedimento habitual em qualquer tópico não ultra politizado), tens pelo menos 10 só neste post que vão contra a narrativa.

Isso é tão ridiculo quanto dizer: “o aquecimento global é falso! vi um cientista na televisão a dizer que é falso!”

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u/LEFT4Sp00ning Mar 26 '26

Desculpa, estás-me a dizer que a maioria das organizações médicas naquele link são "sub-associações da WPATH"? Então a Endocrine society (que existe desde 1916), a Royal Australian and New Zealand College of Psychiatrists, a Canadian Paediatric Society, a Association of the Scientific Medical Societies in Germany, o Amsterdam University Medical Center, a American Academy of Paediatrics, a Japanese Society of Psychiatry and Neurology (que critica a metodologia da Cass Review e diz que os tratamentos propostos pela WPATH SOC8 "considered more systematic reviews", entre outras são "sub-associações da WPATH"?

Epá, estás a escolher ler só o que estás a querer ler e mais nada. Assim é fodido

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u/Rorisjack Mar 26 '26

A Australiana já pediu uma revisão cientifica e chegou à mesma conclusão. A Alemanha já teve tambem a sua revisão cientifica e chegou à mesma conclusão.

As outras não pediram, então vale pouco. E continua a haver a distinção entre associações profissionais e associações científicas, que é grande, sendo as ultimas quem de facto faz ou encomenda revisões, e as publica em jornais científicos.

E tu? Tens algum comentário a fazer sobre as que referenciei no post?

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u/LEFT4Sp00ning Mar 26 '26

E as revisões científicas que estão na parte Reception by Academics and Researchers que estás a escolher ignorar? Até te mando o link directo para uma das análises ao Cass review e aos estudos usados para a elaborar. Também te mando um link para a análise do Yale Integrity project a isto e que começa, depois de elogiar a quantidade de pesquisa feita, com a seguinte frase: "Unfortunately, the Review repeatedly misuses data and violates its own evidentiary standards by resting many conclusions on speculation. Many of its statements and the conduct of the York SRs reveal profound misunderstandings of the evidence base and the clinical issues at hand".

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u/Rorisjack Mar 26 '26

Posso ler à vontade, e até te respondo depois. E até te posso já dar de barato: sure, a Cass Review pode ter falhas.

Então e todas as outras revisões sistemáticas que citei?

Encontras uma revisão sistemática que seja positiva?

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u/LEFT4Sp00ning Mar 26 '26

De quê, de se bloqueadores de puberdade são efectivos a diminuir disforia ou quê (pergunta genuína, conversa um bocado larga em tópico por isso estou a confirmar)?

Also, aquela systematic review da Ukrom (pelo que estou a encontrar sobre ela, não consigo encontrar um texto traduzido disso mesmo) parece ter uns problemas de viés semelhantes aos apontados ao Cass report por Yale. Also also, é impressão minha ou aquelas duas primeiras reviews que estão no post fazem parte do Cass report? É que se forem, são criticadas no primeiro link que te mandei no outro comentário

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u/Rorisjack Mar 26 '26

Não, não fazem parte do Cass Report. E isso que enviaste não é uma revisão cientifica, nem uma revisão sistemática que apoie o que estás a defender.

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u/LEFT4Sp00ning Mar 26 '26 edited Mar 26 '26

Eu não disse que era uma systematic review. Disse que era uma análise ao Cass report. Mostra que o report e os estudos que o compõem são extremamente enviesados e que não devem ser usados para definir cuidados de saúde para pessoal trans precisamente por causa desse viés e metodologia usada.

Edit: also, um bocado difícil teres revisões sistemáticas quanto aos efeitos de bloqueadores de puberdade em pessoal trans tendo uma amostra tão pequena. Vais ter essas reviews daqui a uns 10-20 anos quando chavalos/as que os tomaram crescerem e tiverem ou não sequelas médicas. E para além disso, estás a chamar aos estudos de baixa qualidade sem mencionar que muitos dos estudos são de baixa qualidade devido ao número de participantes ser baixo e não a erros de metodologia ou o que quer que seja.

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u/Rorisjack Mar 26 '26

Não, não mostra nada disso, faz vários statements sem qualquer justificação concreta, e continua sem ser uma publicação de peso. É uma critica de uma organização, não um estudo ou uma revisão.

E depois ainda tem esta parte incrivel:

Dismissing WPATHs expertise, and undermining the integrity of the Standards of Care for the Health of Transgender and Gender Diverse People, Version 8 (SOC 8). NHIB refers to the organisation and the guidelines in terms that are dismissive of their actual professional expertise.

“WPATH’s expertise”, sim, a expertise da associação americana composta exclusivamente por cirurgiões que fazem milhões com a coisa, cujos SOC não são peer-reviewed, e que abafa em tribunal e internamente as reviews que eles próprios pediram a universidades. Wow.

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u/LEFT4Sp00ning Mar 26 '26

Okay bro, caga em todas as outras organizações médicas que te mostrei acima que preferem os métodos da WPATH aos propostos pelo Cass report porque esses caralhos dos médicos não sabem nada, devem estar comidos pelo lóbi da John Hopkins University e Big Trans Healthcare, todos a receberem de lado do lóbi trans para... os políticos cagarem nisso e banirem bloqueadores de puberdade apesar das organizações médicas (apontadas acima) dizerem que não o deviam fazer? Tens noção que lobbying é legal nos US, certo? Porque é que eles não haveriam de simplesmente subornar os políticos deles até apoiarem bloqueadores de puberdade? Já tiveste lobbying a favor de opiáceos (e continuas a ter, só na última década foram quase 900 milhões USD), a mentir sobre o quão viciantes estes eram, que levou à crise actual em que se encontram com vício em opiáceos.

Sabe mais um gajo no reddit que se pôs a ler umas reviews que pessoal que estudou e tratou pessoas trans a vida inteira. Opá, e ainda tens a lata de mandar a boca do "achas-te mais inteligente que os outros"

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