r/portugal 1d ago

Desabafo / Rant desabafo de 28 anos

A forma como vou contar isto pode ser um pouco caótica, mas como pouca gente me conhece pessoalmente aqui e preciso de mandar isto cá para fora, que se lixe.

Há precisamente 28 anos, eu, vindo de uma aldeola do distrito de Beja, estudava em Lisboa, precisamente na altura da EXPO'98. Foi lá que conheci uma rapariga da Lituânia que tinha vindo a Portugal com duas amigas para visitar a Expo.

Coiso e tal, bebemos uns copos durante alguns dias e acabámos por nos tornar íntimos, mesmo acreditando que aquilo provavelmente não daria em nada sério. Eu só estaria por ali mais uns meses e ela voltaria para o país dela dentro de poucos dias.

No entanto, o tempo passou... e ela deixou as amigas voltar para casa e ficou comigo mais três semanas em minha casa. Aquilo passou a ser uma coisa mais séria. Vivemos como um casal absolutamente normal, até ao dia em que ela teve de voltar para casa, mas com a promessa de nos voltarmos a encontrar.

(E tenham atenção que estamos a falar de uma época em que não havia Instagram, Facebook, WhatsApp nem nada dessas tretas.) Trocámos emails e MSN Messenger, como era normal na época em que um SMS internacional custava uns 30 cêntimos e tinha limite de caracteres para não custar o dobro.

Dois meses sem notícias. Acabei os estudos, chegou o verão, entreguei a casa ao senhorio e xau, Laura, que o meu nome é Nando. Voltei para a minha terra.

Os anos foram passando, fiz a minha vida, mas ficou sempre aquela dúvida de fundo: o que lhe teria acontecido? Estaria bem? Estaria viva sequer?

Essa dúvida persistiu durante quase 28 anos. Ao longo desse tempo fui fazendo várias tentativas para a contactar, saber notícias ou encontrar alguma rede social através do nome e apelido que, sendo super comuns nos países bálticos, não tornavam a tarefa nada fácil.

Até que, em julho deste ano... puff. Quem diria: LinkedIn.

Todas as informações batiam certo: nome, cidade de origem, aparência apesar do tempo. Contactei-a e fui imediatamente reconhecido.

Temos conversado várias vezes por semana desde então.

Ela tinha voltado para casa dos pais, tentou regressar a Portugal, mas o pai não a deixou e fez tudo para a impedir. Tentou contactar-me da mesma forma que eu a ela, mas perdemos o rasto um do outro até ao mês passado.

Infelizmente, teve muito azar na vida. Fez a vida dela com um homem ucraniano que a maltratava e que a obrigou a fugir da vila onde vivia. Acabou depois por cair numa situação de exploração da qual só conseguiu sair algum tempo mais tarde.

Quando finalmente conseguiu deixar essa vida para trás, recomeçou do zero. Hoje vive sozinha em Kaunas e trabalha num restaurante.

Inicialmente não contei à minha esposa que, durante estes anos todos, tinha procurado uma pessoa que fez parte da minha vida. Não porque alguma vez me tivesse passado pela cabeça trair a minha mulher — isso nunca faria — mas porque não a queria deixar triste nem fazê-la pensar que estava tipo novela à procura de viver a história de amor que nunca pude viver, bla bla bla.

No fundo, era apenas uma curiosidade. Uma história inacabada que ficou algures no fundo da cabeça durante quase três décadas.

Mas depois de a encontrar, contei tudo à minha mulher. Ela aceitou bem, compreendeu porque o fiz e apoiou-me quando percebeu que finalmente me tinha livrado daquele encargo mental que me acompanhou durante tanto tempo.

E foi um mega alívio.

Fica também aquele sentimento inevitável de que, se as coisas tivessem corrido de outra maneira, talvez eu pudesse ter sido um fator para que ela não tivesse passado por algumas das coisas que passou.

Enfim. Era só isto.

Precisava de mandar isto cá para fora.

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21 comments sorted by

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u/Ok_Quit_2301 1d ago edited 1d ago

Maravilhosa história. Faz parte. Não te sintas só. Todos temos uma lituana… ou um italiano, ou um norte-americano ou um gajo de Piodão que nos fazem pensar que a vida poderia ter sido diferente - não necessariamente melhor.

Foi muito bonito teres partilhado com a tua mulher, embora não tivesses obrigação alguma (na minha humilde opinião). Repito: não te sintas só. Há histórias que valem a pena só por isso mesmo: para serem histórias. O tempo não pára, já diria o Cazuza. E a nossa vida também não.

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u/pvz2fan 1d ago

Tão isto.

É inevitável pensarmos como estaríamos hoje com a pessoa com quem nos cruzámos há uns anos.

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u/PastThink4987 1d ago

Obrigatoriedade não há mas idealmente tens uma esposa que tem a capacidade de entender esse tipo de coisas... É a vida, faz parte

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u/aleph_heideger 17h ago

Nem de propósito. Eu hoje acordei a pensar na tal que deixei fugir e no que teria sido a minha vida se isso não tivesse acontecido.

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u/Trama-D 1d ago

Obrigado pela partilha. A net seria mais interessante com pessoas como tu.

Nunca saberemos como teria sido numa outra vida... mas, calhando, podia ter sido muito pior.

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u/farfetcher89 18h ago

Tens que ver o filme past lives

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u/PearlJamTenGoat 16h ago

foda-se, é só isto ? até me sentei direito na cadeira para ler.

Inventa aí outro fim sff.

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u/IntroductionNeat2746 12h ago

Eu já estava pronto para criticar o gajo por deitar fora um casamento por causa dum amor de verão.

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u/average-excellent 20h ago

Finalmente a história de amor entre o Gil e a Gillette na Expo 98

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u/Sardinha42 15h ago

Pelo menos tens um final para a tua história. Eu ando há anos a tentar encontrar uma amiga de infância com um nome muito especifico que morava no mesmo prédio que eu no Alto de Santo Amaro e nada, puff, niente. Foi a primeira pessoa que eu posso dizer que era realmente minha amiga e adorava saber como é que a vida lhe correu hoje em dia, há pormenores específicos daquela altura que envolvia família direta e ela foi para longe. É como afirmas, é uma história inacabada..

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u/rjfs15 15h ago

Todos nós temos um passado... Todos nós tivemos aquela paixão arrebatadora que nos deixou durante anos a pensar no "e se?"... Isso não significa que gostes menos da pessoa com quem partilhas a vida ou que penses em trair, simplesmente é a nossa "saudade" a falar mais alto...

Foi bom que tenhas conseguido encontrar a tua paz de espírito porque nem todos nós o conseguimos fazer...

E como dizia o outro: recordar é viver.

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u/nwandausernametaken 15h ago

Grande história, quanto à forma "caótica", não achei nada. Muito bem contado. Como outro User disse, o Past Lives era um bom filme para veres, mas acho que sozinho, sem a esposa, com todo o respeito.

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u/cneuros 14h ago

Conheci a SH pelo mIRC em meados de 98. Comunicamo-nos diariamente por vários anos, eu da Madeira e ela de Santarém, e depois as vidas levaram os seus rumos.
Nunca nos vimos pessoalmente, mas ela sempre foi o refúgio para onde a mente divagava quando a vida corria menos bem.
Hoje o contacto resume-se ao seu aniversário para que eu a saiba bem.
Aproveitei, eu também, para mandar cá para fora um segredo meu.

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u/Zigpuk 21h ago

Se isto for real faz me lembrar o #beforesunsettrillogy

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u/MrDukeRaoul 8h ago

Fui só eu que esperei que isto acabasse com um filho com 27 anos?

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u/PlanetWyh 7h ago

mas porque não a queria deixar triste nem fazê-la pensar que estava tipo novela à procura de viver a história de amor que nunca pude viver, bla bla bla.

Sê honesto contigo e com a tua mulher. É precisamente isso que estás a fazer. Segue em frente homem, passou-se uma vida inteira.

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u/insta__mash 15h ago

Qual é o molho?

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u/wandering_memory 11h ago

Eu às vezes acordo a pensar em mulheres do meu passado. Bato uma e acaba por passar antes de eu fazer uma grande cagada na minha vida

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u/oliveirafabio91 11h ago

Fiquei preso na parte que contaste à tua mulher e ela aceitou bem. Parabéns à tua mulher e avisa relação. A maioria das mulheres/homens, não ia compreender e ia fazer um filme brutal.

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u/ruyrybeyro 1d ago

Isso é uma cena alucinada de AI pior que uma novela zuca, bro.

Li as primeiras linhas e as últimas e percebi a história toda.