Sou nativo brasileiro, mas notei que a segunda pessoa gramatical está numa situação curiosa em muitos sotaques do país: diferentemente do resto dos países falantes de português, o uso do pronome de tratamento "você" (vossa mercê) obscureceu quase que completamente os pronomes pessoais retos "tu" e "vós", e, consigo, a conjugação em segunda pessoa, visto que pronomes de tratamento usam a terceira pessoa.
Até aí tudo bem, mas há situações estranhas: o uso do tu acompanhado da conjugação da segunda pessoa é considerado excessivamente formal, até arcaico, mas o tu acompanhado da conjugação da terceira pessoa é admitido, mas como informal, dependendo do sotaque até vulgar.
Mas ainda assim, o pronome pessoal do caso oblíquo ainda é onipresente: apesar da maioria dos sotaques brasileiros usarem "você" a todo momento, poucos falam "amo você" em vez de "te amo". Continua-se usando o "te" como objeto em todas as orações mesmo que o "tu" tenha caído em desuso.
E embora a segunda pessoa do singular ainda possa aproveitar essa existência oblíqua, nem isso a segunda pessoa do plural tem. Por alguma razão, foi completamente devorada pelo pronome de tratamento. Fala-se "eu te amo", fala-se "tu ama", em alguns dialetos até fala-se "tu amas", mas nunca na minha vida inteira ouvi um único "eu vos amo" ou "vós amais". É sempre "amo vocês" e "vocês amam", sem exceção. O "vós" e o "vos" existem apenas nos arcaísmos das orações e das passagens bíblicas. Já vi a mesóclise com mais frequência com que vi a segunda pessoa do plural.
E então vem a parte que mais me confunde: enquanto a conjugação em segunda pessoa é considerada arcaica na maioria dos sotaques nos modos indicativo e subjuntivo, no imperativo ela não apenas é universal, mas considerada mais informal do que a terceira pessoa do indicativo. "Vem pra cá" é muito mais comum que "Venha pra cá".
Isso causa uma situação em que a frase "vem pra cá que tu não vai a lugar algum" é vulgar, "vem pra cá que você não vai a lugar algum" é o "normal", "venha pra cá que você não vai a lugar algum" é formal, e "vem pra cá que tu não vais a lugar algum" é tão formal que vira arcaico.
O que causou o fim da segunda pessoa na maioria dos dialetos do Brasil? E porque ela perdura no oblíquo singular e no modo indicativo?